sexta-feira, 28 de junho de 2019

Ciclos

Algumas coisas se despredem da natureza na mesma equivalência do seu show de início; me questiono- quanto tempo dura a permanência de sua importância na história das coisas?

Fazem 22 anos que tento ir contra essa estatística do círculo terminavel das coisas. Faço permanência há anos na volta do percurso do metrô escutando as mesmas musicas e com o mesmo sentimento de tristeza de ter que voltar- para o lugar que por algum motivo habito-.

O que se desprende no infinito pode ter essa importancia exatamente pela crença dos humanos de que tudo se acaba. Como uma humana bobinha que sou, não acredito nisso.

Para mim as coisas não se desprendem do Universo. Nunca.

É por isso que abraço minha amiga que morreu- morrer; no dicionário dos humanos quer dizer que se acaba em matéria e termina o ciclo. Eu não acredito nisso. Como uma humana bobinha que sou, não acredito nisso.

Quando a abraço é fácil ouvir a sua voz e sentir o envolcro dos seus dedos afagando as minhas dores e entre os meus cabelos; e sei até o que ela me diria naquele momento. Porque ela não deixou apenas um legado, ela é permanência, ela está aqui junto com todo o amor e coisas boas que fez e faz.

Das paixões que tivera, tudo em fragmentos também fazem permanência nas minhas matérias; por elas que sou o que sou em total loucura e insanidade dos sentidos- obrigada por isso.

Me lembro do trecho onde Leonardo Boff me orientou em uma de minhas leituras sobre a configuração daquela época sobre a arte do cuidado

"O cuidado é aquela condição prévia que permite o eclodir da inteligência e da amorosidade. É o orientador antecipado de todo comportamento para que seja livre e responsável, enfim, tipicamente humano. Cuidado é gesto amoroso para com a realidade, gesto que protege e traz serenidade e paz. Sem cuidado nada que é vivo, sobrevive. O cuidado é a força maior que se opõe à lei suprema da entropia, o desgaste natural de todas as coisas até sua morte térmica, pois tudo o que cuidamos dura muito mais."

Humana bobinha que sou, acredito que essa configuração de cuidado é um paradigma que ultrapassa o tempo, é a expressão da permanência, onde sem ele, todos os sentidos se perdem pelo tempo- mas as palavras- as palavras não permitem se esvair, como as do autor, que faz permanência de um ciclo desde quando escreverá; e mesmo depois de todos queimarem e deletarem as provas que um dia elas existiriam; elas ainda vão se fazer sentidas pelas atitudes que se sobressaem das pessoas.

Os ciclos são intermináveis.

E não, nenhuma pessoa sai sem levar nada da outra.